SOBRE JAIR BOLSONARO E JEAN WYLLYS

Não dá para atribuir equivalência ao comportamento dos deputados Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e Jean Wyllys (PSOL-RJ) nos lamentáveis episódios ocorridos no histórico domingo, 17 de abril de 2016, quando a Câmara aprovou a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A democracia e o direito à livre expressão pressupõem tolerar os tolos e suas tolices. Se o próprio Cel Carlos Alberto Brilhante Ustra torturou ou não, o fato é que ocorreram torturas sob seu comando (entre 1970 e 1974 a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo reuniu 502 denúncias de tortura no Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna [DOI-CODI] paulista). Aqueles a favor da tortura como instrumento de investigação fazem distinção entre inimigos ilegais e prisioneiros de guerra, mas deve ser lembrado que a tortura é violação direta das convenções de Genebra e pode configurar crime de guerra. E os que se servem da tortura se transformam naquilo que combatem.

Ademais, na mesma sessão, houve deputados de partidos de esquerda que reverenciaram terroristas assassinos como “Che” Guevara, Carlos Marighella e Carlos Lamarca. E diferente do que a esquerda – inclusive Dilma Rousseff – alardeia, os grupos de guerrilha não lutaram contra o governo militar pela democracia. Como escreve Elio Gaspari: “A luta armada fracassou porque o objetivo final das organizações que a promoveram era transformar o Brasil numa ditadura, talvez socialista, certamente revolucionária. Seu projeto não passava pelo restabelecimento das liberdades democráticas. […] Documentos de dez organizações armadas […] mostram que quatro propunham a substituição da ditadura militar por um ‘governo popular revolucionário’ (PC do B, Colina, PCBR e ALN). Outras quatro (Ala Vermelha, PCR, VAR e Polop) usavam sinônimos ou demarcavam etapas para chegar àquilo que, em última instância, seria uma ditadura da vanguarda revolucionária. Variavam nas proposições intermediárias, mas, no final, de seu projeto resultaria um ‘Cubão’” (A ditadura escancarada: as ilusões armadas [SP: Cia das Letras, 2002], p. 193).

Surpreendentemente, a homenagem aos terroristas foi tomada como normal, como se depreende do silêncio a respeito nos jornais, mas a menção ao militar não.

Já no episódio da cusparada, que coroou um discurso patético, há uma agressão transmitida em rede nacional de televisão. De um lado, uma cusparada, que é uma agressão, um crime contra a honra (injúria), e que vale cassação por falta de decoro; do outro, uma opinião, profundamente tola e carente de realismo político.

Alguns tentaram defender ou relativizar a declaração de Bolsonaro. Mas o pré-candidato à presidência conseguiu a façanha de perder milhares de votos em 30 segundos. Um exemplo de fazer política contra si mesmo. Ainda assim, vários que se identificam com a “direita” apoiaram a afirmação do deputado. E essa é (outra) parte da tragédia política brasileira: somente um único partido (em 35) espelha valores conectados com o conservadorismo/liberalismo político. Em linhas gerais, brasileiros são conservadores no campo dos valores, mas este conservadorismo moral está muitas vezes conectado ao autoritarismo profundamente arraigado em nossa cultura (para entender o fenômeno, cf. Bruno Garschagen, “Pare de acreditar no governo”).

Os verdadeiros conservadores/liberais políticos não se coligam a autoritários, nem lhes oferecem adesão. Muito menos apoiam a prática da tortura. Tristemente, falta muito para a moralmente conservadora “direita” brasileira ser algo parecida com o liberalismo político no sentido estrito do termo, que defende não apenas a diminuição do Estado, mas a salvaguarda dos direitos individuais básicos.

Encerro citando as palavras de Davi Charles Gomes, ditas em conversa pessoal: “Eu tenho uma profunda suspeição de qualquer ideologia movida pela ira, tanto as que são explicitamente de esquerda, quanto aquelas que, clamando ser de direita, são tão ‘revolucionárias’ quanto às de esquerda”.

JAIR BOLSONARO E JEAN WYLLIS