RESENHA: SUBMISSÃO

O polêmico livro Submissão, de Michel Houellebecq é uma distopia, que imagina um futuro (2022) em que os muçulmanos chegam ao poder na França. E quem decide as eleições que levam o candidato do partido muçulmano ao poder é a esquerda socialista, com medo dos nacionalistas e também ambicionando os ministérios oferecidos. Como destaca Rodrigo Constantino, esta é uma das mensagens mais importantes do livro: “Sem essa colaboração, os muçulmanos não teriam chegado ao poder”; o que não deixa de ser um lembrete dos “colaboracionistas” franceses, que apoiaram o invasor nazista na Segunda Guerra Mundial.

O narrador, um professor universitário de meia-idade, encontra na conversão ao Islã uma fuga para sua vida sem sentido e solitária. O personagem resume sua falta de perspectiva quando Myriam, sua namorada judia, deixa a França em busca da salvação em Israel, ao dizer: “Não há um Israel para mim”.

Como resume João Pereira Coutinho, o livro de Houellebecq “é mais uma meditação irônica e brilhante sobre o esgotamento espiritual do Ocidente”. Pois, de acordo com Constantino, “a ausência de crenças sólidas, a riqueza possibilitando um modelo de estado de bem-estar social que ‘cuida’ de todos do berço ao túmulo, o ‘humanismo’ laico que acaba por retirar qualquer sentido mais profundo da vida, tudo isso contribui para esse vácuo que será ocupado por algum fanatismo qualquer, algo que preencha o espaço vazio com uma explicação de ‘tudo’, que aplaque as angústias: uma submissão plena.” Em suma, a ausência do cristianismo deixou a Europa sem opções para se contrapor ao islamismo, porque as outras opções – deísmo, ateísmo, niilismo, existencialismo, socialismo – não têm a força, a pujança da fé cristã, para contrabalançar a pressão do Islã.
O livro de Houellebecq gerou intenso debate e mesmo reações extremadas de islamitas por alertar que talvez a Europa já tenha chegado a um ponto sem volta, deixando o caminho aberto para que o vácuo de valores no continente seja preenchido pelo Islã.

Para concluir, três citações provocadoras de dois personagens do livro:

“A ausência de curiosidade dos jornalistas era de fato uma bênção para os intelectuais, porque hoje tudo isso estava facilmente disponível na internet, e me parecia que exumar alguns desses artigos poderia lhe render certos aborrecimentos; mas, afinal, talvez eu estivesse enganado, tantos intelectuais no século XX tinham apoiado Stalin, Mao ou Pol Pot sem que jamais tivessem sido criticados por isso; o intelectual na França não precisava ser responsável, isso não fazia parte de sua natureza.”

“Os fascismos sempre me pareceram uma tentativa espectral, uma visão de pesadelo, falsa, para tornar a dar vida a nações mortas; sem a cristandade as nações europeias não eram mais que corpos sem alma – zumbis.”

“Na base de muitos mimos, carícias e cafunés vergonhosos nos progressistas, a Igreja católica se tornara incapaz de se opor à decadência dos costumes. De rejeitar claramente, vigorosamente, o casamento homossexual, o direito ao aborto e o trabalho das mulheres. Era preciso se render à evidência: tendo chegado a um grau de decomposição repugnante, a Europa ocidental já não estava em condições de se salvar por si mesma – assim como não estivera a Roma antiga no século V de nossa era.”

[O livro deve ser lido com discrição; alerto que há palavrões e descrições de cenas de sexo.]

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