O uso correto das citações

Arminianos já postaram duas vezes em minha página do Facebook a citação de Jaroslav Pelikan que está na imagem abaixo.

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No original, a primeira sentença está assim:

“A condenação oficial do pelagianismo não indicava endosso incondicional ao agostinianismo que, de muitas maneiras tinha ido além até mesmo da tradição teológica ocidental (sem mencionar a tradição oriental) ao postular uma doutrina da predestinação, incluindo a da predestinação à condenação e a da irresistibilidade da graça. Mesmo aqueles que se juntaram à oposição a Pelágio se negaram a concordar com a forma extrema assumida por essa doutrina da predestinação da graça (Faust. Rie. Grat. 1.1 [CSEL 21:6-12]).”

É omitida a fonte desta primeira sentença. Mais grave são as omissões na segunda sentença. O original diz:

“Mas a doutrina agostiniana não era apenas nova e herege, ela, no fim, era pagã. Era uma ‘teoria fatalista’ [fatalis persuasion] (Faust Rie. Grat. 1.16 [CSEL 21:50]). Ela falava bastante sobre a graça, mas ‘[Agostinho], em nome da graça, prega fatalismo’ (ap. Prosp. Ep. Ruf. 3 [PL 51.79]). A predestinação era apenas uma forma eufemística de reintroduzir uma noção pagã da necessidade fatal (ap. Prosp. Ep. Aug. 3 [PL 51:69]. A doutrina agostiniana pareceu ser epitomada na tese de que ‘pela predestinação de Deus os homens são compelidos a pecar e a caminhar para a morte por um tipo de necessidade fatal’ (ap. Prosp. Resp. Gall. 1.1 [PL 51:157]).

Nesta segunda citação, Jaroslav Pelikan está descrevendo a posição dos “semipelagianos”, por meio da citação de Próspero de Aquitânia e Fausto de Riez, este último chamado pelo primeiro de “remanescente da heresia pelagiana” (Prosp. Ep. Aug. 7 [PL 51:72]) (p. 322). As referências que Pelikan oferece entre parênteses foram omitidas, me parece, para dar a entender que o texto, que é descritivo (v. “a objeção, em essência, era que…”, “os críticos de Agostinho…”, p. 322, 324, 326), refletiria a opinião do historiador sobre a compreensão de Agostinho da predestinação. Portanto, quem transcreveu as sentenças cortou a menção às fontes, que mostra que as mesmas não tratam da opinião pessoal de Pelikan, mas são uma reconstrução das críticas dos adversários de Agostinho (inclusive pela citação destas como compiladas por seu principal intérprete, Próspero).

Como se aprende em Metodologia da Pesquisa, “ap.” é abreviação da palavra latina apud (“citado por”), usada quando se faz uma citação de segunda mão, isto é, citação de uma citação. E quando se suprime uma parte do texto de uma citação direta deve-se utilizar elipses (três pontos entre parênteses), cuidando para não deixar o texto sem sentido e nem alterar o ponto de vista exposto pelo autor.