Na beleza dos lírios

O mais ambicioso livro de John Updike talvez seja Na Beleza dos Lírios (1996) – o título é extraído de uma linha da versão inglesa do hino Vencendo vem Jesus. A história segue quatro gerações sucessivas de uma família americana, de 1910 a 1990, e fornece um retrato comovente da perda da fé religiosa na sociedade americana. O primeiro protagonista é Clarence Wilmot, um pastor presbiteriano que estudou com B. B. Warfield no Princeton Theological Seminary. Ele tem todos os comentários de Calvino, mas ainda assim perde sua fé de forma dolorosa – por causa da leitura de, entre outros, textos de um agnóstico chamado Robert Ingersoll. Numa tarde quente, “as últimas partículas de [sua] fé” se foram.

Há passagens memoráveis: sua incapacidade de terminar um sermão, pregado à Quarta Igreja Presbiteriana em Paterson, NJ, após a perda de sua fé; um superior eclesiástico (formado no liberal Union Theological Seminary) tentando persuadi-lo a permanecer no ministério, mesmo sem fé; ou sua esposa, Stella, que encara a pobreza com corajosa dignidade. Wilmot deixa o ministério, tornando-se um vendedor de enciclopédias infeliz (ainda vendendo “a palavra”, mas sem sucesso), mas mais importante ainda, sua perda de fé coincide com o surgimento do cinema. Clarence agora encontra seu único consolo fugindo para salas de cinema; na ausência da fé, o cinema fornece a memória de uma transcendência que desapareceu – havendo uma substituição gradual da religião pela adoração de imagens na tela. Outros personagens centrais são seu filho Ted, sua neta Essie – que se torna uma grande estrela de Hollywood – e o bisneto Clark.

Na Beleza dos Lírios é um romance magnífico, que cobre 80 anos de história de um país “maluco, esbanjador, que vive se autodestruindo”, como diz um dos personagens; talvez o mais belo conto que já li sobre o desaparecimento (e, na última parte da obra, o perturbador reaparecimento) da fé na vida moderna.10557237_813702328703517_6192816680930159628_n