Pai-Nosso Computador

John Updike, um dos mais importantes romancistas do século 20, era um leitor voraz de Karl Barth – ele prefaciou a tradução de uma obra deste, Wolfgang Amadeus Mozart (Eerdmans, 1986). Uma de suas principais obras, Roger’s Version (1986), recebeu no Brasil o título Pai-Nosso Computador (a mudança do título impede que o leitor perceba que este livro é uma paródia da obra de Nathaniel Hawthorne, A Letra Escarlate).

A novela se passa em meados de 1980, num seminário teológico liberal que lembra a Harvard Divinity School, em Massachusetts. O personagem principal é Roger Lambert, um cínico e desiludido discípulo de Barth, professor de história das heresias antigas, ex-ministro metodista afastado de sua igreja após o fim escandaloso de seu primeiro casamento. Sua tediosa rotina é bagunçada pela chegada em seu gabinete de Dale Kohler, um evangélico que quer cursar teologia, pois almeja provar a existência de Deus por meio de um programa de computador – ao mesmo tempo que acaba atraído por Ester, a jovem esposa de Roger.

A caricatural representação das pretensões, jargões, rivalidades profissionais, vidas patéticas e fé atrofiada de Roger e seus colegas professores – um bultmaniano, outro tillichiano – é tragicamente hilária. E muito mais próxima da realidade que alguns admitiriam. Pai-Nosso Computador é tanto um conto de vingança e humor negro, como uma alegoria das tensões entre fé e razão; religião e ciência; crença e incredulidade; casamento e adultério, acompanhada por citações das músicas de Cindy Lauper e das obras de Barth e Tertuliano.11060102_812895745450842_8042384750744138623_n